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Disputa por engenheiros é mais acirrada no alto escalão

Mesmo com todos os investimentos em infraestrutura feitos nos últimos anos pelo governo, a temida falta de engenheiros no mercado de m trabalho tem se confirmado apenas no alto escalão das empresas.


Mesmo com todos os investimentos em infraestrutura feitos nos últimos anos pelo governo e a grande expectativa gerada com a realização de grandes eventos esportivos, a temida falta de engenheiros no mercado de m trabalho tem se confirmado apenas no alto escalão das empresas. Na opinião de diversos especialistas ouvidos pelo Valor, a previsão de que haveria um apagão de mão de obra qualificada na área não se confirmou principalmente em razão da desaceleração da economia no país.

Segundo André Freire, presidente no Brasil da multinacional de recrutamento executivo Odgers Berndtson, a dificuldade está em encontrar engenheiros civis que tenham entre 15 e 20 anos de experiência, fluência em inglês e bom trânsito corporativo. É uma demanda, por exemplo, de grandes empresas de varejo que têm se expandido nacionalmente e precisam de um diretor de obras.

"Existem profissionais muito bons tecnicamente, mas que deixam a desejar na questão do segundo idioma e em aspectos mais políticos relacionados ao negócio, como a interação com pares, superiores e outras diretorias", diz. O resultado é que o processo de seleção acaba se arrastando por meses até que o cliente abra mão de algo.

Freire diz que a procura se estende para o setor químico e para o comando da produção e das operações das companhias. Mas, ao contrário dos engenheiros civis, que passam boa parte da carreira atuando em projetos afastados dos grandes centros, esses profissionais já estão acostumados ao ambiente empresarial. "O leque de opções nesses casos é mais amplo. De todo modo, existe hoje uma resistência maior por parte deles em mudar de emprego em razão das incertezas na economia. Custa caro atrair essas pessoas."

Carlos Silva, gerente da consultoria Hay Group, concorda que o segmento de construção é um dos que mais demandam engenheiros de todos os níveis e é também um dos mais atrativos para quem decidiu seguir essa carreira. "Os que atuam no 'core business' das empresas acabam tendo um destaque em sua remuneração", afirma.

De acordo com Isis Borge, gerente de divisão de engenharia da Robert Half, especializada em recrutamento de média gerência, houve um hiato de formação de engenheiros no mercado que hoje preocupa os gestores. "Profissionais jovens e com pouca experiência em gestão de crises cresceram na carreira mais rápido que o normal, o que impactou o desenvolvimento de equipes. A consequência é uma demanda cada vez maior de profissionais com perfil sênior", diz.

O presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi, concorda. Ele lembra que, após um longo período de estagnação na área nos anos 1980 e 1990, os graduados em engenharia foram trabalhar em outras áreas - especialmente na financeira. O volume de solicitações por mão de obra voltou a crescer somente no início dos anos 2000, com a demanda da China por commodities agrícolas e minerais. Alguns anos depois veio o 'boom' imobiliário e, em seguida, foram anunciadas grandes obras como as do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

"Não havia gente para atender a essas três ondas ao mesmo tempo. A partir de 2008, no entanto, houve um arrefecimento geral em razão da crise. Como o crescimento do país é pífio desde 2010, existe atualmente até certa ociosidade entre os recém-formados. A disputa acirrada por engenheiros se restringe ao alto escalão", afirma. "Se estivéssemos no mesmo ritmo de alguns anos atrás, certamente ainda teríamos dificuldade na atração e retenção desses profissionais", completa Silva, do Hay Group.

José Tadeu da Silva, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), afirma que a realocação de profissionais que antes estavam atuando em áreas distintas das respectivas formações ajudou a equilibrar oferta e demanda. De acordo com a instituição, os conselhos regionais que regulam a profissão (Creas) contabilizaram nos últimos quatro anos um aumento de 54,74% de registros, totalizando atualmente mais de um milhão de profissionais.

"As eventuais deficiências são pontuais e muito específicas em determinadas áreas e campos de atuação - notadamente aqueles nos quais há um maior desenvolvimento em outras partes do globo, demandando mão de obra altamente especializada do exterior", afirma. Setores como o de energia e o de óleo & gás são exemplos.

Nesse cenário, segundo Silva, engenheiros de países como Portugal e Espanha, que continuam sofrendo com altos índices de desemprego, seguem se candidatando para preencher essas vagas no Brasil. "O mercado ajustou naturalmente os salários praticados no país aos pagos no exterior. Isso permitiu uma melhor circulação e mobilidade das equipes envolvidas em projetos transnacionais", diz.

O presidente do Confea ressalta que a legislação brasileira obriga as empresas do setor que contratam temporariamente estrangeiros a manter com eles um profissional brasileiro, de maneira a possibilitar a transferência de "know how" e garantir a responsabilização técnica pelas obras e serviços executados.

Levantamento do Hay Group sobre remuneração no setor com base em novembro de 2013 mostra que o salário base de um engenheiro no nível sênior varia entre R$ 8 mil mensais na área de serviços até R$ 11.489 na construção pesada. Segundo a consultoria, o engenheiro sênior é aquele que tem no mínimo oito anos de experiência, realiza atividades de maior complexidade na área e exerce uma "liderança técnica" com outros engenheiros menos experientes.

De acordo com Silva, do Confea, o piso salarial dos engenheiros é regido pela Lei 4950-A/66, que estabelece um salário-base entre seis e nove salários mínimos, a depender da jornada de trabalho (seis ou oito horas). "Os jovens brasileiros percebem que há perspectivas de desenvolvimento e de mercado de trabalho com bons salários. Isso explica o fato de os cursos de engenharia estarem registrando uma maior concorrência no vestibular", diz.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) informam que o número de matrículas em engenharia no país saltou de 192.927, em 2001, para 601.447, em 2011, superando pela primeira vez o curso de direito. O total de estudantes no curso representa 5% dos graduandos no país, enquanto na Alemanha o índice é de 16% e na Coreia do Sul, de 28%.


Por Rafael Sigollo | De São Paulo

 


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Disputa por engenheiros é mais acirrada no alto escalão

Mesmo com todos os investimentos em infraestrutura feitos nos últimos anos pelo governo, a temida falta de engenheiros no mercado de m trabalho tem se confirmado apenas no alto escalão das empresas.

Mesmo com todos os investimentos em infraestrutura feitos nos últimos anos pelo governo e a grande expectativa gerada com a realização de grandes eventos esportivos, a temida falta de engenheiros no mercado de m trabalho tem se confirmado apenas no alto escalão das empresas. Na opinião de diversos especialistas ouvidos pelo Valor, a previsão de que haveria um apagão de mão de obra qualificada na área não se confirmou principalmente em razão da desaceleração da economia no país.

Segundo André Freire, presidente no Brasil da multinacional de recrutamento executivo Odgers Berndtson, a dificuldade está em encontrar engenheiros civis que tenham entre 15 e 20 anos de experiência, fluência em inglês e bom trânsito corporativo. É uma demanda, por exemplo, de grandes empresas de varejo que têm se expandido nacionalmente e precisam de um diretor de obras.

"Existem profissionais muito bons tecnicamente, mas que deixam a desejar na questão do segundo idioma e em aspectos mais políticos relacionados ao negócio, como a interação com pares, superiores e outras diretorias", diz. O resultado é que o processo de seleção acaba se arrastando por meses até que o cliente abra mão de algo.

Freire diz que a procura se estende para o setor químico e para o comando da produção e das operações das companhias. Mas, ao contrário dos engenheiros civis, que passam boa parte da carreira atuando em projetos afastados dos grandes centros, esses profissionais já estão acostumados ao ambiente empresarial. "O leque de opções nesses casos é mais amplo. De todo modo, existe hoje uma resistência maior por parte deles em mudar de emprego em razão das incertezas na economia. Custa caro atrair essas pessoas."

Carlos Silva, gerente da consultoria Hay Group, concorda que o segmento de construção é um dos que mais demandam engenheiros de todos os níveis e é também um dos mais atrativos para quem decidiu seguir essa carreira. "Os que atuam no 'core business' das empresas acabam tendo um destaque em sua remuneração", afirma.

De acordo com Isis Borge, gerente de divisão de engenharia da Robert Half, especializada em recrutamento de média gerência, houve um hiato de formação de engenheiros no mercado que hoje preocupa os gestores. "Profissionais jovens e com pouca experiência em gestão de crises cresceram na carreira mais rápido que o normal, o que impactou o desenvolvimento de equipes. A consequência é uma demanda cada vez maior de profissionais com perfil sênior", diz.

O presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), José Roberto Bernasconi, concorda. Ele lembra que, após um longo período de estagnação na área nos anos 1980 e 1990, os graduados em engenharia foram trabalhar em outras áreas - especialmente na financeira. O volume de solicitações por mão de obra voltou a crescer somente no início dos anos 2000, com a demanda da China por commodities agrícolas e minerais. Alguns anos depois veio o 'boom' imobiliário e, em seguida, foram anunciadas grandes obras como as do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

"Não havia gente para atender a essas três ondas ao mesmo tempo. A partir de 2008, no entanto, houve um arrefecimento geral em razão da crise. Como o crescimento do país é pífio desde 2010, existe atualmente até certa ociosidade entre os recém-formados. A disputa acirrada por engenheiros se restringe ao alto escalão", afirma. "Se estivéssemos no mesmo ritmo de alguns anos atrás, certamente ainda teríamos dificuldade na atração e retenção desses profissionais", completa Silva, do Hay Group.

José Tadeu da Silva, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), afirma que a realocação de profissionais que antes estavam atuando em áreas distintas das respectivas formações ajudou a equilibrar oferta e demanda. De acordo com a instituição, os conselhos regionais que regulam a profissão (Creas) contabilizaram nos últimos quatro anos um aumento de 54,74% de registros, totalizando atualmente mais de um milhão de profissionais.

"As eventuais deficiências são pontuais e muito específicas em determinadas áreas e campos de atuação - notadamente aqueles nos quais há um maior desenvolvimento em outras partes do globo, demandando mão de obra altamente especializada do exterior", afirma. Setores como o de energia e o de óleo & gás são exemplos.

Nesse cenário, segundo Silva, engenheiros de países como Portugal e Espanha, que continuam sofrendo com altos índices de desemprego, seguem se candidatando para preencher essas vagas no Brasil. "O mercado ajustou naturalmente os salários praticados no país aos pagos no exterior. Isso permitiu uma melhor circulação e mobilidade das equipes envolvidas em projetos transnacionais", diz.

O presidente do Confea ressalta que a legislação brasileira obriga as empresas do setor que contratam temporariamente estrangeiros a manter com eles um profissional brasileiro, de maneira a possibilitar a transferência de "know how" e garantir a responsabilização técnica pelas obras e serviços executados.

Levantamento do Hay Group sobre remuneração no setor com base em novembro de 2013 mostra que o salário base de um engenheiro no nível sênior varia entre R$ 8 mil mensais na área de serviços até R$ 11.489 na construção pesada. Segundo a consultoria, o engenheiro sênior é aquele que tem no mínimo oito anos de experiência, realiza atividades de maior complexidade na área e exerce uma "liderança técnica" com outros engenheiros menos experientes.

De acordo com Silva, do Confea, o piso salarial dos engenheiros é regido pela Lei 4950-A/66, que estabelece um salário-base entre seis e nove salários mínimos, a depender da jornada de trabalho (seis ou oito horas). "Os jovens brasileiros percebem que há perspectivas de desenvolvimento e de mercado de trabalho com bons salários. Isso explica o fato de os cursos de engenharia estarem registrando uma maior concorrência no vestibular", diz.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) informam que o número de matrículas em engenharia no país saltou de 192.927, em 2001, para 601.447, em 2011, superando pela primeira vez o curso de direito. O total de estudantes no curso representa 5% dos graduandos no país, enquanto na Alemanha o índice é de 16% e na Coreia do Sul, de 28%.


Por Rafael Sigollo | De São Paulo

 


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